sexta-feira, 30 de julho de 2010

Resenha[1]

Pro dia nascer feliz

Patrícia Aparecida de Oliveira[2]


JARDIM, João. Pro dia nascer feliz. Filme documentário – produção: Flávio R. Tamberlline; João Jardim. Produtora: Tamberlline filmes, SP ano 2006.


João Jardim nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em jornalismo, fez um curso de cinema na Universidade de Nova York. Foi diretor do longa-metragem “Janela da Alma”, que estreou em 2002, ficando por mais de quarenta semanas em cartaz nos cinemas do Brasil e recebeu em torno de onze premiações. Antes de estrear como diretor de longa-metragem, Jardim atuou na área de publicidade e televisão. Trabalhou com Paul Mazursky em “Luar sobre Parador” (1988), com Murilo Salles em “Faca de dois gumes” (1989) e com Carlos Diegues em “Dias melhores virão” (1989). Montou também vários programas musicais para televisão, entre eles, “Tudo ao mesmo tempo agora”, com os Titãs (1991); “Mais”, com a cantora Marisa Monte (1992); e Caetano 50 anos, com Caetano Veloso. Integrou o núcleo de produção da Rede Globo, dirigido por Carlos Manga e ainda editou e dirigiu minisséries, entre elas Engraçadinha.

A produção do filme documentário “Pro dia nascer feliz” ganhou nove prêmios em vários festivais de cinema brasileiros. Composto de uma bela trilha sonora, de cenas marcantes, que segundo o próprio Jardim, é um diário do cotidiano dos adolescentes do Brasil em seis escolas brasileiras. Onde mostram as diferenças sociais, econômicas e culturais destes adolescentes, bem como os problemas que permeiam alunos, escolas e professores. As escolas observadas estão localizadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.

São 88 minutos de informação e conhecimento, além de nos permitir um olhar reflexivo sobre a educação em nosso país. São cenas que perpassam por salas de aula, por alunos nos pátios em recreios ou mesmo em aulas vagas, em bate-papos próprios de adolescentes. O documentário apresenta entrevistas com professores e alunos; mostrando professores desiludidos e desanimados pelo sistema educacional e pelo o constante desinteresse dos alunos. E mostra alunos desatentos, desinteressados, marginalizados, abafados pela pressão da escola, ou desacreditados pelos professores.

O filme se estende para toda sociedade num alerta a respeito da realidade vivida por adolescentes no interior das escolas, e também fora delas. Penso que todos os educadores e estudantes deveriam ter a oportunidade de vêem este documentário, para que possam refletir sobre que tipo de educação espera-se em nosso país. É intrigante, digo até que chocante ver cenas de escolas dilaceradas, onde não tem água ou um banheiro decente, não tendo sequer o mínimo para que uma pessoa se estude com dignidade. Ao contrario vi neste documentário, cenas de escolas onde a dignidade das pessoas é simplesmente jogada ao chão.

No momento que eu assistir ao filme fiquei abismada com as imagens apresentadas, com toda a situação abordada a cerca dos conflitos vivido por adolescentes e professores. Conflitos esses que me deixou pasma perante a deploração destas escolas, bem como seus professores e alunos. O que mais me sufoca é saber quão esta realidade está mais próxima do que eu possa imaginar, e estes, não são casos isolados de Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro, mas casos que se apresentam em todo o Brasil.

O documentário se inicia em Manari, no sertão pernambucano, cidade que apareceu no senso como um dos índices mais altos de analfabetismo no Brasil. Foi nesta escola em Manari, que apresenta uma cena muito comovente, é o caso de Valéria, uma adolescente cheia de sonhos e esperanças. Mas com consciência da sua realidade. Firme, com olhar e voz meiga, ela diz em meio a um sorriso sincero e afetuoso que os professores não acreditam no seu talento para escrever. Ela muito estudiosa, mostra um livro de Drumonnd, diz que gosta muito de ler que os outros jovens da sua cidade a acha estranha por gostar de ler e estudar.

A cidade que Valéria mora não tem escola do ensino médio, portanto ela vai para a escola num ônibus fretado pela prefeitura. Porém este ônibus é quase que uma sucata, quebra constantemente, sem o mínimo de conforto para uma viagem por uma estrada de chão. Mesmo com todos os contras que Valéria encontra, ela não desanima nunca, e mesmo tendo consciência da sua dura realidade, não vê um outro meio de uma vida melhor, se não for por meio da educação, dos estudos. E isso é um grande contraste com outros adolescentes mostrados no documentário. Como por exemplo, Douglas que é visto pelos professores como um aluno problema, desinteressado, o típico aluno que perturba todas as aulas. E sem saber o que fazer com Douglas, as professoras, decidem num conselho de classe, aprová-lo. E Douglas simplesmente vai para outra série sem saber nada do conteúdo que já teria que ter aprendido neste ano letivo.

Um outro ponto do documentário que me chamou muito a atenção foi o caso da menina que matou uma colega por um motivo banal. E o que mais impressiona é a narrativa dela quanto ao fato, num tom de frieza e sarcasmo ela relata que chegou ao corredor da escola deu as facadas, e pensou que ela fosse morrer logo, mas que havia demorado ainda 10 minutos para morrer. Fiquei me perguntando em que país estamos vivendo? Que educação esta sendo pensada e repensada para estes jovens, que não tem perspectiva nenhuma na escola, no país ou na sua própria vida? O que esperar deste país, deste sistema educacional? É muito esdrúxula esta situação, a educação em nosso país esta passando por uma situação de alto perigo que transcende a todos os órgãos competentes, como também, a toda sociedade.

Uma questão colocada também neste documentário, foi a escola da elite paulistana, um outro sistema de educação, uma escola tradicional católica, rígida e que os seus alunos reclamam muito da cobrança excessiva. No entanto se nota neste espaço escolar problemas enfrentados por estes alunos, que reclamam da extensa carga horária a qual eles são submetidos, falam também de problemas existenciais e depressão.

Numa outra escola de São Paulo, mostra a realidade de uma aluna que vive numa crise de identidade sexual. Keila, num depoimento comovente, fala dos seus anseios de saber sua opção sexual, por medo de expor sua situação, e ser ridicularizada ou de não ser aceita, pela família, pelos colegas, ou melhor, de não ser aceita por toda uma sociedade altamente preconceituosa. E ela relata seu desejo de morrer, para fugir de tudo. Encontrando apoio no projeto fanzine, coordenado pela professora de literatura. E neste projeto os alunos encontram apoio, tendo voz e vez para falar, através da literatura suas angústias, suas alegrias, seus desejos.

Este documentário, além de mostrar realidades diferenciadas dos adolescentes, nestes três estados, mostra também no meu ponto de vista um sistema educacional cheio de intrigas, de controvérsias, de entraves. Onde professores desmotivados pelos baixos salários, pela violência ocorrida fora e dentro da sala de aula, pelo desinteresse dos alunos, vão para as salas de aula, esmigalhados, cansados, estressados e isso salta aos olhos de qualquer pessoa que assista ao filme. Mostra-nos também um sistema educacional carente, quase que fracassado, embrenhado na sua própria realidade.

Focalizando estes adolescentes em suas realidades, o documentário mostra-os, bem como as escolas onde eles estudam, e seus professores meio que perdidos em seu próprio contexto educacional e existencial.

Pro dia nascer feliz, é um pisca alerta para que alguma coisa seja feita, com a máxima urgência pela educação, pelos nossos adolescentes, pela formação de professores. É necessário acordar, não dá mais para esperar o de fingir que está tudo bem. Não é tapando o sol com a peneira que vamos resolver os problemas existentes com o ensino neste país. É preciso haver uma mudança, mesmo que sabemos, não é fácil as mudanças, mas elas precisam acontecer, e se todos se derem as mãos e começarem a agir rápido é possível que esta realidade possa mudar.

Para que haja um novo sistema de ensino, um novo modo de se ensinar, de se mediar os conteúdos programáticos de cada disciplina, exige entrega e muita força de vontade, e isso cabem também aos professores, que precisam sair da comodidade e começar a fazer alguma coisa. Não dá mais para colocar a culpa só no sistema, todos nós temos nossa parcela de culpa, e precisamos agir rápido.

Quero ressaltar que este documentário é um instrumento muito importante para que alunos, professores e coordenadores possa ter acesso. E ainda o recomendaria a todos que acreditam que a educação é uma ferramenta eficaz, importante e essencial para que a sociedade seja transformada, para isso é preciso de um trabalho coletivo. E é necessário um investimento muito maior na educação. Não se pode mais emendar a educação, é preciso fazer algo concreto pelo sistema educacional de nosso país.

Digo assim baseando-me nas e nos dados escandalosos nos traz. É triste mas é real, em nosso país segundo o documentário há 200 mil escolas, onde 18 mil pasmem, não tem banheiro, e duas mil não tem água, itens básicos para um mínimo de conforto. E boa parte dessas escolas estão no nordeste brasileiro, um canto do país assolado pela seca, pela fome, pela pobreza extrema e pelo o total descaso dos governantes.

Por fim, recomendo que assistam ao filme, ele é de fácil compreensão, além de ser algo real, são cenas que em nenhum momento se camufla a realidade, ao contrário, seu objetivo é justamente mostrá-la, mesmo que de forma dura, até mesmo para alertar toda a sociedade brasileira. É um filme muito bem feito e mito bem produzido. Vale a pena assistir cada pedacinho, mesmo que seja cenas que hora nos choca, hora nos comove, mas por fim nos faz chorar perante tantos problemas e tantos descasos com os adolescentes, com as escolas, com os professores, com a educação neste país.







[1] Resenha crítica sobre o filme documentário “pro dia nascer feliz”, apresentado a disciplina de Epistemologia e Didática.
[2] Acadêmica do V período do curso de Licenciatura em História do campus X p UNEB.

2 comentários:

  1. É triste analisar a educação dessa forma não pela análise, mas pela opção de educação que encontramos, a diferença é gritante entre escola pública e particular, quando será que teremos uma escola publica de boa qualidade? Infelizmente sei que não podemos responder essa pergunta, mas quem sabe não conseguiremos mudar um pouco a nossa realidade como bons professores. Bjos penellopy muito boa sua resenha!

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  2. Infelismente mais esse é o retrato da educação no Brasil. Esse é o seu futuro cotidiano!!

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